PONTOS DE ONIBUS – LAURA CASTRO

Nos pontos de embarque e desembarque de passageiros de ônibus[1] é possível notar que o comportamento dos usuários apresenta um caráter homogêneo, como se se sentissem constrangidos a somente se sentar e esperar pelo transporte. É interessante perceber que mesmo quando esse espaço faz parte do cotidiano familiar das pessoas se destaca uma condição de disciplina que restringe sua apropriação com liberdade doméstica. É como se existisse um acordo que determinasse que o banco foi feito somente para se sentar de maneira “civilizada”. O termo civilização, de acordo com Nobert Elias (1990), exalta o que as diversas sociedades têm ou deveriam ter em comum, e assim representa uma identidade que todos deveriam compartilhar. No entanto, é um conceito criado pelas sociedades ocidentais que diz respeito a si próprias, e por isso enfatiza características que deveriam ser compartilhadas por todos os outros povos na opinião de quem já as possui. Em “O processo civilizador – Volume 1: Uma história dos costumes”, o autor explica as origens e as diferenças presentes no termo “civilização” em algumas línguas. A palavra alemã Zivilisation diz respeito aos costumes e à aparência externa dos homens e se refere então a superficialdade, cerimônia, formalidade e decoro. Já o termo Civilisation, em francês e inglês britânico, diz respeito ao orgulho de suas realizações e pode possuir abordagem política, econômica, religiosa, técnica, moral e social, isto significa que pode compreender processos práticos e também deliberações comportamentais. Nota-se pelas nacionalidades de origem do termo – alemã, francesa e inglesa – que ele “manifesta a autoconfiança de povos cujas fronteiras nacionais e identidade nacional foram tão plenamente estabelecidos, desde séculos, que deixaram de ser tema de qualquer discussão, povos que há muito se expandiram fora de suas fronteiras e colonizaram terras muito além delas”. (ELIAS, 1990, p.25) Mesmo contendo diferenças de significado em suas origens, essas abordagens diversas do termo civilização implicam em um processo comum de discriminação que revela uma ordem de controle e submissão. Nesse sentido, o uso dessa expressão opõe que é e o que não é considerado civilizado a partir do olhar do dominador. Assim, evidencia-se uma tentativa de reduzir as diferenças comportamentais a partir da tendência de uma constante expansão do pensamento colonizador sobre sociedades consideradas por eles como sendo menos evoluídas. No caso dos pontos de ônibus, por exemplo, a lógica civilizada estabelece que os bancos servem para se sentar e que os bundoris[2] servem para apoiar os quadris. Nesse sentido, ações simples podem ser consideradas incivilizadas ou subversivas como colocar os pés no banco ou se sentar nos bundoris, mesmo que esses atos não configurem vandalismo da estrutura ou ameaça física e moral a outros indivíduos.

Para Agamben (2005), dispositivo[3] é o termo que explica a relação que existe entre quaisquer elementos que se organizam formando uma rede, sejam eles discursos, instituições, edifícios, leis ou outros. Uma característica fundamental desse conjunto de elementos é o fato que ele deve possuir necessariamente um objetivo estratégico e se inserir como elemento estruturante em uma relação de poder. Ao longo de sua obra, Foucault descreve o dispositivo de controle como resultado das relações entre os seres viventes e sua conjuntura histórica, que associa instituições, métodos de subjetivação e regras que consolidam as relações de poder. Assim, a noção de dispositivo espacial de controle é usada por Foucault (1999) para se referir a um ambiente programado e controlado por um sistema de vigilância. É interessante notar que o uso do termo “vigilância” faz referência a uma rede de agentes observadores que promovem a disseminação do poder disciplinar, ou seja, a vigilância é um dispositivo de controle por excelência. O autor usa como exemplos desse tipo de dispositivo as prisões, os hospitais, escolas, etc, partindo do conceito de panopticon – uma estrutura em arco composta por um torre central e celas isoladas entre si, distribuídas radialmente e com fechamento translúcido voltado para o centro e para o exterior que permite passagem de luz e, portanto, possibilita visibilidade a partir do ponto central. Essa distribuição permite que o observador localizado na torre controle as ações de quem está nas celas periféricas, sem que esse último se dê conta de que está sendo vigiado. Nesse breve ensaio, a ideia é entender como o conceito de dispositivo espacial de controle pode ser aplicado às estruturas dos pontos de ônibus apesar de elas não compartilharem os atributos arquitetônicos dos equipamentos abordados por Foucault. Além disso, o presente trabalho busca entender como se dá esse acordo não explícito que condiciona as ações dos usuários do sistema de transporte público.

De acordo com Foucault (1999), o sujeito considera como legítimas as relações de poder e a hierarquia. Um acordo tácito legitima a estruturação do poder e aceita a existência de um pacto em torno da representação política – conhecido como “Estado”. Assim, o jogo político – também conhecido como “governo” – é aceito por todos os seus participantes, estando eles em posição de dominador ou de dominado, pois esse jogo é condição para a prática política do Estado. Essa é a razão pela qual as pessoas em posição de submissão obedecem mesmo quando não estão de acordo com a política praticada, quase sempre favorável à classe dominante. A estrutura de poder se alterou ao longo da História e hoje em dia ele não mais se fundamenta na existência física de um só soberano, por exemplo um rei ou imperador, mas sim em sistemas permanentes de controle e vigilância que servem de suporte à manutenção da estrutura do Estado. Logo, as estratégias de repressão acontecem na medida em que se controlam os corpos e seus atos no espaço, e, no momento em que estabelece um sistema de constrangimentos sociais e materiais, extraem a riqueza. (FOUCAULT, 1999)

Os pontos de ônibus tornam homogêneo o comportamento de seus usuários, que por sua vez são constrangidos a esperar o transporte sem se sentirem à vontade para se apropriar livremente de sua estrutura. Ou seja, a lógica disciplinar condiciona o usuário do sistema de transporte público e traz à tona uma lógica funcional administrada do espaço agenciado pelo Estado. Nesse sentido, a sensação de vigilância que domestica o comportamento do usuário não precisa se dar pela presença de câmeras ou de um fiscal. É o acordo tácito de hierarquia entre a instituição coordenadora do sistema e seu usuário que enquadra o ponto de ônibus dentro da lógica de dispositivo espacial de controle. Ao que parece, essas estruturas são concebidas numa lógica que privilegia a estratégia institucional que domestica os indivíduos, alienando-os em relação à dinâmica de seu entorno e do que acontece no nível da rua. A aplicação geográfica desse poder pode ser notada nas decisões que estabelecem os itinerários das linhas e, por conseguinte, a localização de seus pontos de parada na cidade e a qualidade ambiental desses espaços. Pode-se perceber que alguns pontos possuem abrigos e outros não. Os pontos são sinalizados com placas e nesse elemento pode-se notar diferentes níveis de elaboração em suas informações: algumas placas são eletrônicas, algumas podem conter informações sobre os números, itinerários e horários das linhas que passam por ali e, na maioria dos casos, a sinalização é composta por apenas um poste com um ícone genérico de indicação de parada.

O papel fundamental das estratégias de domesticação surge no momento em que essas se mostram necessárias para controlar as forças que “deslocam” esse indivíduo na estrutura hierárquica axial entre os governantes e os governados. No capítulo entitulado “Sobre a Geografia” do livro “Microfísica do poder” (1999), Foucault fala sobre o uso de terminologia de denotação espacial como analogia para questões sociais, tal como a expressão “deslocar” que foi usada acima para descrever a ação que movimenta o sujeito da sua “posição” não como espacialidade literal de quem está embaixo ou em cima, mas sim metafórica que usa como referência a estrutura genealógica. É interessante notar que apesar de Foucault possuir uma análise histórica rigosora em suas pesquisas ele não se preocupa, a princípio, com o fator espacial que se referem aos estudos geográficos em suas análises. Na entrevista que se dá ao longo desse capítulo, o entrevistador destaca que, apesar de Foucault não especificar recortes geográficos em seus estudos, ele tem o costume de usar uma terminologia carregada de metáforas espaciais. Por exemplo, ele usa o termo “território” como uma noção jurídico­política para descrever o que é controlado por um poder, mas não com intenção de denotar uma fronteira espacial de determinada maneira de uso. Esse tipo de analogia acontece para outros termos, tais como “campo”, “deslocamento”, “solo”, “região”, “horizonte”, etc. O autor justifica o uso dessas expressões como uma maneira de exprimir a relação entre o saber (estratégico do exército, por exemplo) e o poder. Nesse sentido, o uso das metáforas espaciais em seu discurso se revela como prática política que permite associar a noção de guerra à gestão do saber. Nesse mesmo capítulo, é dito que a Geografia seria responsável por apresentar ferramentas que possibilitam a sistematização e a medição da prática do controle. No caso dos pontos de ônibus, por exemplo, seria possivel cartografar uma hierarquia espacial de acordo com sua existência e grau de sofisticação no espaço urbano. Como exemplo, será apresentado um recorte que considera apenas o contexto da avenida Cristiano Machado em Belo Horizonte-MG, na altura do número 2450 no bairro Cidade Nova e do número 2355 no bairro Nova Floresta, paralelos e localizados respectivamente nas margens leste e oeste da avenida. Nota-se nesses pontos de parada diferenças em suas estruturas apesar de receberem as mesmas linhas de ônibus[4].

Figura 1: Localização de Belo Horizonte, da avenida Cristiano Machado e dos pontos de ônibus em frente aos números 2355 e 2450. Fonte : Google maps editado pela autora

Figura 2: Ponto de ônibus na avenida Cristiano Machado em frente ao número 2355. Fonte : Acervo pessoal da autora

Figura 3: Ponto de ônibus na avenida Cristiano Machado em frente ao número 2450. Fonte : Acervo pessoal da autora

O ponto em frente ao número 2450, no bairro Cidade Nova, possui dois abrigos cobertos, dois bancos, lixeira, estrutura fixa e iluminada para publicidade, painel informativo eletrônico e sinalização indicativa das linhas que passam por ele. Em comparação, o ponto que recebe as mesmas linhas do outro lado da avenida, em frente ao número 2355, no bairro Nova Floresta, possui apenas a sinalização com idicação das linhas e o painel eletrônico. Uma coleção de mapas que considerasse as condições sócio-econômicas de cada bairro, a data e os responsáveis pela implantação desses pontos de parada, a quantidade de usuários que utilizam esses locais e os horários de maior movimento permitiria uma sobreposição de informações, e, nesse sentido, um acúmulo de saber. De acordo com o pensamento do Foucault, o saber se relaciona diretamente com a prática do poder. Talvez com essas informações fosse possível saber o porquê de haver diferenças na qualidade ambiental entre esses dois pontos de ônibus paralelos, que não parece óbvio em um primeiro momento. Nesse sentido, a Geografia passaria a ser, então, a ponte responsável por permitir cartografar a distribuição espacial dos discursos presentes nas táticas e estratégias que conformam a geopolítica. (FOUCAULT, 1999)

Foucault (1999) aponta para a necessidade de pensar a continuidade do processo revolucionário considerando a importância exercida pelos fatores de coerção que atuam em parceria com o aparelho de Estado. Um exemplo de fator de coerção seria oferecer melhor qualidade ambiental e conforto em pontos de ônibus em um bairro mais rico e negligenciar a equivalência entre o ponto localizado do outro lado da avenida. Com base no que foi discutido, o que se pode perceber é que o dispositivo de controle tem função indispensável para a gestão do Estado em favor dos grupos dominantes, pois é ele que consegue articular os discursos e as práticas associadas à “liberdade” do sujeito para a manutenção de uma sociedade disciplinar consentida e promovida pela população. Nesse sentido, continuando o exemplo, compreende-se o fato de a comunidade do bairro com o ponto de ônibus desfavorecido considerar normal a existência de tais diferenças ambientais. É interessante então discutir a questão de o poder não se dar apenas por meio de uma relação de hierarquia social evidente, mas também a partir dos processos de subjetivação (AGAMBEN, 2005). Nesse sentido, há um consentimento por parte dos indivíduos colocados em posição inferior, que, ao serem capturados pelos dispositivos, são domesticados e colaboram para a manutenção do sistema de controle. Por conta de tal influência sobre o comportamento, Agamben amplia o conceito desenvolvido por Foucault:

Generalizando posteriormente a já amplíssima classe dos dispositivos foucaultianos, chamarei literalmente de dispositivo qualquer coisa que tenha de algum modo a capacidade de capturar, orientar, determinar, interceptar, modelar, controlar e assegurar os gestos, as condutas, as opiniões e os discursos dos seres viventes. Não somente, portanto, as prisões, os manicômios, o panóptico, as escolas, as confissões, as fábricas, as disciplinas, as medidas jurídicas, etc, cuja conexão com o poder e em um certo sentido evidente, mas também a caneta, a escritura, a literatura, a filosofia, a agricultura, o cigarro, a navegação, os computadores, os telefones celulares e – porque não – a linguagem mesma, que é talvez o mais antigo dos dispositivos, em que há milhares e milhares de anos um primata – provavelmente sem dar-se conta das conseqüências que se seguiriam – teve a inconsciência de se deixar capturar.(AGAMBEN, 2005, p.13)

Isto é, com o incentivo a favor da produção de subjetividade pela máquina de Estado, os indivíduos se deixam manipular e então eles próprios passam a defender e produzir subjetivações, de maneira voluntária e, portanto, equivocadamente livre. O indivíduo é, então, simultaneamente efeito e veículo de difusão do poder. De acordo com Agamben (2005), os dispositivos são capazes de disciplinar o comportamento social e, para entender como se dá o processo de controle a partir da produção de subjetividade, é essencial considerar o fator de “captura” como uma de suas principais características. Para o autor, o indivíduo tem como intenção – consciente ou não – a busca pela felicidade e, ao se deixar capturar, os processos de subjetivação isolam e condensam estrategicamente seus desejos individuais. Dessa maneira, atitudes e liberdades presentes no dia-a-dia das pessoas são consagradas e retiradas do alcance da pessoa comum e elevadas a um nível superior, do mesmo modo como ocorre em rituais sagrados. Nesse caso, em vez de deuses, essas atitudes são colocadas à disposição de grupos dominantes e instituições. O autor aponta a necessidade de “profanar” essas atitudes, ou seja, de retomar seu uso livre na esfera do ordinário. Porém, os sistemas de disciplinarização e hierarquização agem como dispositivo de controle da ordem e como instrumento de valoração social, no sentido que a pessoa que se adéqua às normas de disciplina é consideradas mais “civilizada” do que quem se mantém fora desse padrão ou seja, do que quem subverte a ordem “sagrada” de comportamento.

O potencial da ação subversiva em nível cotidiano[5] é discutido por Félix Guattari e Suely Rolnik. Em um trabalho feito em conjunto entitulado “Micropolítica: Cartografias do desejo” (1996), os dois autores descrevem as políticas de subjetivação da seguinte maneira: “a cultura de massa produz, exatamente, indivíduos: indivíduos normalizados, articulados uns aos outros segundo sistemas hierárquicos, sistemas de valores, sistemas de submissão.” (GUATTARI; ROLNIK, 1996, p.22) Os autores apontam também o caráter perverso dos meios de comunicação, que modelam e controlam a absorção das relações semióticas entre imagem, palavras e significação. Essa mídia que circula é apropriada pelos indivíduos em suas vivências particulares, esmagando a potência criativa do sujeito nos campos social e tecnológico. É interessante notar aqui a diferença de uso dos termos “individualidade” e “singularidade”. O primeiro se refere ao resultado da produção de subjetividade inconsciente, e sob esse aspecto coloca o indivíduo como terminal consumidor de ideias prontas. Já a singularidade é a recusa à manipulação, ela estabelece uma relação social sensível e modos de produção criativos. Assim como Agamben coloca que os indivíduos têm atitudes que buscam a felicidade e por isso muitas vezes se deixam capturar pelos dispositivos de subjetivação, Guattari e Rolnik afirmam que o “sujeito singular” age de dentro da lógica de dispositivos, ou seja, faz parte dela mas é agente de resistência política. Explicando em outras palavras, a singularidade do sujeito se manifesta em suas práticas de resistência frente à produção de subjetividade promovida pelas instituições, no entanto o sujeito continua fazendo parte dessa lógica de controle disciplinar, ele faz a revolução de dentro do sistema. Essa ação se revela política por questionar a ordem de produção hierárquica vigente, ou seja, é ferramenta que resiste aos dispositivos de controle social por meio da construção de singularidades autônomas. Ela é contra a atitude acrítica de adequação e transmissão da produção de subjetividade dominante. (GUATTARI; ROLNIK, 1996).

Os ponto de ônibus são estruturas que se configuram como espaço livre de uso público favorável à observação dos efeitos dos dispositivos de controle em nível cotidiano. São áreas em que seus usuários se mostram vulneráveis às pré-determinações institucionais, por exemplo o nível de conforto ambiental da estrutura em si (sobre o qual foi falado anteriormente), os horários e itinerários dos ônibus que passam por ele, o acesso a outros serviços a partir do ponto de parada, a presença de fiscais e agentes de segurança pública, etc. É interessante perceber que existe uma lógica geográfica de poder presente na distribuição desses fatores, que fazem com que um ponto de parada seja mais sofisticado que o outro, mas também é notável que a noção de “bom comportamento” se mantém de maneira tácita[6]. Essa ausência de normas oficiais que regulam o que se pode ou não fazer no espaço ou como se apropriar de suas estruturas é uma abertura para a subversão de seu uso programado que pode revelar inteligências locais por meio de seu uso criativo (DE CERTEAU, 1998).

Ao levar em consideração que a etrutura dos pontos de ônibus muitas vezes se resumem a um poste metálico que sustenta a placa de sinalização, o pole dance se revela como uma prática que se adéqua bem à ideia de subversão de sua estrutura espacial. De acordo com Donaghue, Kurz e Whitehead (2011), o pole dance ganhou fama com a sua prática em casas de strip, onde principalmente mulheres dançam usando uma barra vertical como suporte para movimentos de conotação erótica. No entanto, a modalidade teve suas origens na técnica do Mallakhamb, termo indiano que quer dizer “homem de força” ou “ginástica do poste”, praticado a partir do século XII na Índia e considerado como esporte desde o século XVIII, em que movimentos se desenvolvem com o auxílio de um poste de madeira com cordas (SANTOS, 2012). Atualmente, a prática do pole dance pode ser caracterizada por uma dança que abrange movimentos livres e também alguns incorporados de práticas esportivas e artísticas, tais como a ginástica olímpica e as danças clássicas e contemporâneas. A sequência de movimentos se desenvolve a partir de posições estáticas e dinâmicas usando uma barra de metal polido como suporte. Pelo fato de a atividade do pole dance ser capaz de fortalecer os músculos de seus praticantes, a técnica foi adaptada recentemente, já no século XXI, para o treinamento que visa o bem-estar corporal. É interessante notar que no estudo de Donaghue, Kurz e Whitehead (2011) é apontada a capacidade da prática de potencializar a sensação de empoderamento nas pessoas que o praticam, a partir da expressão corporal livre possibilitada pela atividade física. O surgimento desse segmento de exercício, conhecido como pole fitness, em academias e estúdios de dança no Brasil é recente, e se desenvolveu a partir de 2006. Durante o carnaval de 2015, no domingo dia 15 de fevereiro, alguns praticantes da modalidade se reuniram para fazer experimentações nas estruturas do espaço público de Belo Horizonte em um bloco de rua chamado “Poleamor”. Em um contexto de festa, a prática não causou estranhamento nas pessoas que não estavam envolvidas diretamente com a atividade, que teve um grande número de participantes que se alternavam na apropriação de postes de sinalização de trânsito, de indicação de nome de ruas, etc. O encontro das pessoas foi possibilitado por meio da divulgação do local e data em mídias digitais de rede social. No caso, foi utilizada a ferramenta de criação de evento via Facebook.

Figura 4: Apropriação de placa de sinalização de trânsito por participante do “Bloco do Poleamor”, em Belo Horizonte, 2015. Fonte : Fotografia de Daniel Parreira. [online] Disponível em :<https://www.facebook.com/events/1566939930210850/&gt;. Acesso em 08/06/2015.

Figura 5: Apropriação de placa de sinalização de trânsito por participante do “Bloco do Poleamor”, em Belo Horizonte, 2015. Fonte : Fotografia de Daniel Parreira. [online] Disponível em  <https://www.facebook.com/events/1566939930210850/&gt;. Acesso em 08/06/2015.

A autonomia desse grupo de pessoas se reflete em sua produção espacial: um pequeno grupo de pessoas toma a iniciativa de organizar um encontro no espaço da rua, aberto a todos que se interessem pela prática do pole dance, um encontro que não promove uma causa política e não possui fins lucrativos direcionados a nenhuma instituição, que não possui um líder representante e se estrutura em uma relação horizontal entre os presentes, em que cada um é responsável por sua própria integridade física e moral, um grupo que se organiza de maneira democrática para decidir quem ocupa o mobiliário urbano, de que maneira, por quanto tempo, etc, e assim estabelece uma ordem dinâmica de sequência de ação que se na estende criando um território até que essa manifestação se encerra sem nenhuma cerimônia que estabelece um fim. O acontecimento do Bloco do Poleamor pode ser comparado ao conceito de criação de território presente na discussão sobre Zonas Autônomas Temporárias, as TAZ, apresentado por Hakim Bey (2014). Ao longo de um ensaio poético o autor aborda a tomada de um posicionamento a favor da independência social de grupos que possuem objetivos não edificantes e que não necessariamente representam um interesse geral a uma sociedade inteira. As TAZ, assim como o Bloco do Poleamor, surgem como um levante, que se revelam de maneira revolucionária porém temporária, de modo que conseguem liberar uma área – que pode ser de terra, de tempo ou de imaginação – mas se dissolvem antes que o Estado se dê conta do acontecimento e consiga se articular para capturá-lo, ou, em alguns casos, reprimir o movimento após considerá-lo clandestino. Ou seja, as TAZ são ocupações festivas, elas são táticas que existem durante um momento, mas que logo desaparecem para não correrem o risco de se cristalizar e serem capturadas pelos mecanismos de subjetivação e se integrarem ao status quo. Por conta da característica autônoma de organização que não se deixa subjugar pelo controle institucional, muitas vezes são consideradas como eventos, assim, elas refletem os anseios pela cultura da liberdade e da felicidade. De acordo com a terminologia usada por Hakim Bey (2014), seus participantes formam um “bando”, um grupo aberto a indivíduos que compartilham dos mesmo interesses e que se associam por seu grau de afinidade em busca de algo comum. Em geral, o bando resiste à ordem capitalista dominante e recusa as formas de lazer programadas pelas instituições de controle e de produção de subjetividade, dessa maneira, lutam contra o “fetichismo da mercadoria” que reduz a diversidade cultural a um contexto homogeneizado[7]. Seus participantes são praticantes da horizontalidade de costumes, por isso não existe um respeito à hierarquia ou à autoridade, nem mesmo há uma relação de dominação entre pessoas de diferentes gêneros ou origem sócio-econômica. É interessante notar que essa maneira horizontal de relacionamento também pode ser percebida nas transferências de informação e dados pela internet. Por isso, de acordo com o autor, a plataforma é utilizada como o principal meio de comunicação entre os indivíduos, que se apropriam das informações que circulam por ela como elementos geradores de poder.

A web não fornece apenas um apoio logístico à TAZ, também ajuda a criá-la. Grosso modo, poderíamos dizer que a TAZ existe tanto no espaço da informação quanto no “mundo real”. A web pode compactar muito tempo, em forma de dados, num “espaço” infinitesimal. Dizemos que a TAZ, por ser temporária não oferece algumas das vantagens de uma liberdade com duração e de uma localização mais ou menos estável. Mas a web oferece uma espécie de substituto para parte disso – ela pode informar a TAZ, desde o seu início, com vastas quantidades de tempo e espaço compactados que estavam sendo “subutilizados” na forma de dados.(BEY, 2014, sem paginação)

O Bloco do Poleamor apresentou o potencial provocador existente na prática do pole dance no espaço público em um contexto de carnaval de rua. Ao trazer essa prática para um ponto de ônibus localizado na área central de Belo Horizonte em uma situação corriqueira, a intenção era tentar perceber como a apropriação do mobiliário urbano de maneira “não convencional” influenciaria a percepção das pessoas que freqüentam esse espaço. Como experiência prática, três praticantes da modalidade foram convidadas a usar o poste de sinalização de um ponto de ônibus como suporte de ação na tarde do dia 2 de junho de 2015 na rua Domingos Vieira em frente ao numero 4, na Praça Floriano Peixoto[8]. O contato incial com essas pessoas foi feito também por meio digital, utilizando o suporte de mensagens do Facebook, e o argumento para o convite foi a curiosidade gerada pelas fotos do carnaval. No entanto foi importante destacar que o experimento proposto possuía um caráter provocador intencional, e portanto menos espontâneo que o acontecido no carnaval. Nesse sentido, a apropriação do espaço do ponto de ônibus se daria por meio da performance artística improvisada por essas pessoas e, a partir dela, o foco da observação cairia sobre as reações dos agentes envolvidos nessa situação que, apesar de deliberadamente criada, possuía resultados de caráter imprevisível. Assim, buscou-se levar em conta as atitudes de quem estava atuando (Babi Bowie, Gabriela Sá e Luana Souza, as três pole dancers e agentes provocadores ativos), de quem estava registrando e estudando o acontecimento (Ana Camargos, Daniela Ribeiro e Eduardo Fonseca, os três fotógrafos, além da própria pesquisadora), de quem estava sofrendo a ação e era afetado por ela (passageiros e funcionários dentro dos ônibus, pessoas no ponto de ônibus, pessoas que trabalham na praça e passantes – agentes provocados passivos), de quem estava sofrendo a ação mas não foi ou não se deixou ser afetado por ela, de quem não percebeu que a ação estava acontecendo e das autoridades de fiscalização e segurança pública presentes (no caso, um policial militar fora do expediente e um agente da guarda municipal em serviço). Tentou-se registrar a experiência por meio de fotografias, vídeos e anotações de conversas, além da identificação de algumas pessoas para futuras entrevistas. Nesse sentido, foi essencial a colaboração dos três fotógrafos convidados para uma abordagem mais completa, pois um ficou encarregado de registrar os olhares dos agentes provocados passivos, outro ficou por conta de acompanhar a performance das pole dancers enquanto o terceiro se encarregou de registrar os olhares a partir dos agentes provocadores ativos por meio da amarração de uma câmera portátil nos pés e na cabeça das dançarinas.

Figura 6: Localização de Belo Horizonte, da praça Floriano Peixoto e do ponto de ônibus da rua Domingos Vieira em frente ao número 4. Fonte : Google Maps editado pela autora

Esse ponto de ônibus foi escolhido a partir de uma busca pela região localizada nas proximidades do estúdio de pole dance em que as participantes treinam, localizados no bairro Santa Teresa, na região leste de Belo Horizonte. Notou-se que naquele bairro foram fixadas lixeiras nos postes de sinalização dos pontos de ônibus recentemente, o que impossibilitou seu uso para essa finalidade. Além disso, pelo fato de o Santa Teresa se tratar de um bairro residencial com tradição boêmia, os pontos de ônibus estavam vazios ou com poucos usuários presentes na hora marcada para o experimento, uma terça-feira às 15 horas. A praça Floriano Peixoto apresentou condições favoráveis para a intervenção. Por se localizar dentro do perímetro central da cidade, delimitado pela avenida do Contorno, o ponto é atendido por um grande número de linhas de ônibus e naquele momento estava comparativamente movimentado, inclusive com grande circulação de pessoas que embarcavam e desembarcavam dos veículos. Esse ponto possui uma estrutura física bem servida de amenidades: ele possui um abrigo coberto com banco, lixeira, placas de informação de itinerário e horários das linhas e placa sinalizadora de parada que indica os números das linhas que atendem o local. Além disso vale ressaltar que por estar localizado em uma praça de grande porte na cidade as condições de calçada, iluminação pública e arborização também favorecem sua qualidade ambiental. Como serviço adicional, notou-se a presença de uma pipoqueira que atende a demanda de pequenos lanches ali diariamente.

Figura 7: Estrutura física do ponto de ônibus e presença de pipoqueira. Fonte : Daniela Ribeiro

Figura 8: Estrutura física do ponto de ônibus com grande circulação de usuários. Fonte : Acervo pessoal da autora

A princípio o poste de sinalização se mostrou pouco confortável para a execução de movimentos pelas dançarinas, pois possuía diâmetro maior do que o ideal. No entanto, mesmo a realização de movimentos considerados “simples” pelas agentes provocadoras foi suficiente para alterar a rotina dos usuários presentes. A sequência de movimentos no poste incluiu subir a uma altura de aproximadamente 1,5 metro do chão e fazer acrobacias diversas. Em alguns momentos a dançarina ficava de cabeça pra baixo, ou com as pernas separadas, ou se apoiando somente pelos braços, em determinado momento uma delas fez como se estivesse sentada e tranquilamente fez o sinal com o braço para solicitar a parada do ônibus como brincadeira. É muito interessante notar esse caráter lúdico espontâneo na apropriação das dançarinas, que ironiza a determinação do ponto de ônibus como algo que tem a única função de mediar o transporte público. O fato de essas participantes possuírem um alto grau técnico e experiência na execução dos movimentos fez com que elas transmitissem uma certa serenidade durante a intervenção, elas interagiram com os outros agentes passivos da rua por meio de breves conversas e risadas, revelando uma abertura do dispositivo de controle do ponto de ônibus como espaço de convivência.

Figura 9: Pole dance no ponto de ônibus. Fonte : Daniela Ribeiro

Figura 10: Pole dance no ponto de ônibus. Fonte : Daniela Ribeiro

A relação estabelecida entre as agentes provocadoras ativas e os agentes provocados passivos é fundamental para a experiência. Os passageiros e funcionários dentro dos ônibus, as pessoas no ponto de ônibus, as pessoas que trabalham na praça e os passantes apresentaram reações diversas à ação, mas algumas atitudes foram notáveis[9]. Por exemplo, as pessoas dentro do ônibus podiam ver as dançarinas no nível de seus olhos, pois o ônibus possui uma plataforma elevada em relação à rua. Alguns usuários riam e interagiam através das janelas, mostrando interesse e curiosidade; outros evidenciavam expressões de desgosto e constragimento ao perceber a prática do pole dance por meninas pouco vestidas[10], provavelmente por associá-la a sua natureza sensual. Nesse sentido, alguns motoristas buzinaram e forçaram o veículo a parar em posição que deixassem a porta alinhada com a dançarina para ter um campo de visão privilegiado, e alguns trocadores fizeram elogios e comentários diretos às dançarinas, alguns deles ficaram com suas cabeça para fora do veículo durante o tempo de parada para embarque e desembarque de passageiros. Com relação a esses últimos, a concentração em sair do veículo e se deslocar rapidamente pela rua revelou alienação com relação ao entorno. Muitas pessoas ao desembarcar do ônibus não percebiam nada de diferente o que pode levar a duas hipóteses: uma que eles não viram as dançarinas empoleiradas na placa, ou outra que eles viram mas não se deixaram afetar. Ao conversar com um rapaz jovem que esperava por seu ônibus e que aparentemente não havia notado a presença das dançarinas foi relatado que, na verdade, ele havia visto mas por constrangimento achou melhor ignorar, em suas palavras ele disse: “Achei estranho, mas não questionei. É uma moça, aí desperta a curiosidade. Prefiro não olhar.” (Elias) Já uma senhora que se afastou do ponto de ônibus quando percebeu a intervenção relatou que “a pessoa fica olhando e perde o ônibus!” (Odete). A pipoqueira Dilene, que trabalha no local, se manifestou positivamente à ação das dançarinas. Ela sorria durante quase todo o tempo e não tentou disfarçar sua curiosidade, porém, disse que como estava ali a trabalho, somente teve sua rotina afetada por conta da distração causada, mas que isso era um bom tópico de conversa com os clientes. Logo na chegada das dançarinas, da pesquisadora e dos fotógrafos a esse ponto de ônibus havia um policial militar fardado esperando seu ônibus (Soldado Gimenes). Uma das dançarinas se sentiu intimidada pelo que a presença de uma autoridade de segurança pública representa, mas em vez de se reprimir disse que era para ele “fingir que não estava vendo nada” (Luana). O soldado se mostrou bem-humorado e disse que desde que não houvesse dano à estrutura física do ponto de parada que não havia problema algum. Em torno de uma hora depois do início da intervenção, um agente da guarda municipal (Paulo Castro) apareceu e solicitou que a ação fosse interrompida e que as pessoas envolvidas deixassem o local. Em tom defensivo ele começou a se justificar dizendo que poderia haver danos no patrimônio da praça, em segundo lugar que era necessário que qualquer ”intervenção artística” seja comunicada à prefeitura para a liberação de um alvará e, em terceiro lugar, que havia o perigo de alguém cair e se machucar e que, caso isso acontecesse, poderia levar a um processo contra a PBH. Nesse momento, ele passou o número do telefone de seu superior que poderia responder a quaisquer outras questões, quando perguntado sobre o nome desse superior ele disse: “é a prefeitura”. Ou seja, a ordem seqüencial de seus argumentos sugere que sua preocupação girava em torno do potencial prejuízo à prefeitura e ao desconforto supostamente gerado mais do que em relação à integridade física da cidadã envolvida no tal “perigo”. A fragilidade presente no discurso do policial pode ser entendida como efeito do processo de produção de subjetividade, na repetição de argumentos colocados acríticamente em favor da instituição e da manutenção do status quo.

Dessa maneira, a intervenção prática que buscava experimentar novos usos para o espaço público do ponto de ônibus, a princípio controlado e vigiado pelas instituições que o administram (PBH e BHTrans), teve seu fim determinado pelo papel autoritário desempenhado por um de seus representantes, que se sentiu incomodado com a apropriação da estrutura feita de uma maneira diferente da prevista. Assim, pode-se afirmar que o ponto de ônibus se configura como um dispositivo espacial de controle tal como descrito por Foucault (1999), em que o comportamento de seus usuários é vigiado e controlado e qualquer manifestação que se posicione contrária à manutenção da sociedade disciplinar é passível de punição. A performance provocativa realizada no espaço público possui o papel de criar uma situação estranha no cotidiano da cidade e, por meio dela, incentivar a reflexão sobre as maneiras socialmente conformadas de produzir o espaço urbano. Segundo Guarnaccia (2003), o grupo Provos, que surgiu na década de 1960 na Holanda, foi um dos precursores na tentativa de instigar a reflexão a respeito da sociedade de consumo ao trazer à tona o caráter apático da sociedade diante da ordem imposta pelas instituições civis. O nome Provos vem de provokatie, o termo holandês para provocação, e o grupo atuava por meio de protestos criativos na cidade de Amsterdam, já na época conhecida por suas soluções tecnológicas de vanguarda e por oferecer à sua população um amplo acesso ao mercado de consumo. De acordo com o autor, os integrantes do grupo eram considerados por muitos como artistas desocupados e exibicionistas, que criticavam justamente o acesso a “tudo” e o vazio gerado pela falta de problemas, com destaque para Robert Jasper Grootveld. O caráter “exibicionista” ocorria como conseqüência das ações do grupo, se davam por meio de happenings. O happening é um tipo de manifestação artística que se desenvolve no contexto diário de uma comunidade e que usa seu espaço urbano como suporte. Por exemplo, uma ação do Provos era sair pela rua simulando tosse como manifestação contra o vício consumista representado pela indústria do cigarro, outra ação era o encontro freqüente nos sábados na praça Spui em frente a uma estátua em forma de menino de rua, em que se desenvolviam intervenções das artes cênicas, de dança e, muitas vezes, discursos influenciados pelo movimento dadaísta. Além disso, o grupo se organizou na edição da publicação também entitulada “Provos”, e a partir da divulgação e influência social do grupo ascenderam ao patamar de liderença política na cidade. Sua ideias se colocavam sempre contra qualquer tipo de proibição, algumas delas promovidas envolviam o uso da bicicleta como meio de transporte (o ”Plano das bicicletas brancas”), a liberação do uso da maconha e de relacionamentos homoafetivos, planos de ocupação de edifícios abandonados na cidade para habitação social (o “Plano das moradias brancas”), entre outras. Seus encontros geralmente eram encerrados com a chegada da polícia, que impunha seu fim ao dispersar o grupo que, apesar de provocador, não respondia violentamente. (PAIM, 2011)

É possível notar semelhanças entre os happenings do Provos e a experiência da prática do pole dance nas ruas de Belo Horizonte. Em ambos, a ocupação efêmera do espaço público visava colocar em evidência o controle disciplinar que se dá sobre o corpo no contexto urbano alienado. Da mesma maneira como no caso holandês, pode-se notar na criatividade do Bloco do Poleamor uma iniciativa social independente, a princípio sem propaganda ideológica mas que se propõe a ocupar a cidade de maneira livre e não-autoritária. No caso dos pontos de ônibus, foi interessante notar o engajamento dos agentes provocadores em causar impacto na rotina dos usuários do sistema de transporte público, acostumados a conviver passivamente com as normas e pré-definições colocadas pela prefeitura. Como colocado anteriormente através do argumento de Guattari e Rolnik (1996), a experiência do pole dance serve para evidenciar o potencial subversivo a partir do uso das estruturas (sociais e espaciais) já existentes no espaço urbano e, somente a partir de dentro desse sistema disciplinador, propôr uma reorganização do argumento político hierarquizado em prol da liberdade. A interrupção da ação das dançarinas pelo policial também revelou o caráter proibitivo e repressor presente em sua atitude, tal como ocorria com o Provos. Entretanto, é notável que apesar de sua breve existência, dois anos entre 1964 e 1966, o grupo Provos superou seu caráter marginal e passou a ter papel fundamental no desenvolvimento das políticas públicas da cidade que podem ser percebidas até os dias atuais. Apesar de as experiências artísticas do pole dance no carnaval e nos pontos de ônibus não terem um objetivo globalizante, ainda é interessante considerar a possibilidade de estender a discussão a nível popular. Apesar de pouco provável, ela é sobretudo otimista.

Bibliografia

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[1] A expressão « ponto de embarque e desembarque de passageiros » é usada no Plano de Mobilidade (PlanMob) apresentado pela Empresa de Transportes e Trânsito de Belo Horizonte (BHTrans) (PREFEITURA DE BELO HORIZONTE, 2010). Também foi encontrado em trabalhos acadêmicos a expressão “abrigo para usuários de ônibus em pontos de parada” (BELLINI, 2008). Porém, na minha opinião, o uso da palavra abrigo remete a algum tipo de proteção que nem sempre está presente nesses pontos de parada, considerando que muitas vezes eles se resumem à presença de uma placa de sinalização fixada sobre um poste. Ao longo do trabalho, será usado o termo “ponto de ônibus” pois é a maneira coloquial corrente de identificação dessas estruturas entre os usuários e funcionários do sistema de transporte.

[2] Bundoril é o nome dado à estrutura composta por uma barra, geralmente métalica e de forma cilíndrica, instalada a uma altura superior que a de um banco tradicional. Ele possui uma superficie de apoio pequena, o que favorece que o usuário o utilize como encosto enquanto permanece em pé.

[3] Para tentar compreender como ocorre o processo de controle social, é necessário trazer à tona o conceito de “dispositivo”, apresentado por Foucault e depois analisado por diversos autores, tais como Agamben, Deleuze, Revel, Chignola, Weinamnn, entre outros. Foucault deriva a carcaterização dos dispositivos do conceito de “positividade” estudado por Hippolyte. De acordo com Agamben, Foucault tem sua argumentação influenciada por Hegel. Já para Revel, a discussão é uma segunda maneira de explicar o conceito foucaultiano de episteme.

[4] De acordo com as informações fornecidas pela BHTrans (online, disponível em <http://servicosbhtrans.pbh.gov.br/bhtrans/e-servicos/S03F02-pontoonibus.asp?logradouro=Cristiano%20Machado&tipo=Ave&gt;, acesso em 03/06/2015), as linhas de ônibus que possuem parada nesses pontos são: 62, 3502, 3503A, 6030, 8102, 8106, 8150, 8207, 8501, e S50. O ponto em frente ao número 2450 recebe ainda a linha S85 e o ponto em frente ao número 2355, as linhas 9550 e S81.

[5] O termo “cotidiano” se refere ao conceito estudado e problematizado por diversos autores, entre os quais Henri Lefebvre, Agnes Heller, Antônio Gramsci, Herbert Marcuse e Michael de Certeau. Cada autor aborda o conceito à sua maneira. Nesse trabalho, o uso de “cotidiano” tem como base o argumento de de Certeau (1998), que se refere às práticas sociais e culturais contemporâneas de um tal “homem ordinário” que se apropria do espaço a partir de astúcias sutis e de táticas de resistência frente às estratégias do mercado capitalista, ou seja, o autor leva em consideração a inventividade do mais fraco nas relações de poder. Nesse sentido, o conjunto formado pelas diversas invenções do cotidiano configuram a cultura do saber.

[6] O Código de Trânsito Brasileiro (BRASIL, 2007) define as atribuições legais das instituições relacionadas ao sistema de transporte, estabelece diretrizes para a Engenharia de Tráfego, normas de conduta, infrações e penalidades para seus usuários. De acordo com essa lei, considera-se trânsito a utilização das vias por pessoas, veículos e animais, isolados ou em grupos, conduzidos ou não por veículo ou outra pessoa, para fins de circulação, parada, estacionamento e operação de carga ou descarga. Nesse sentido, uma pessoa parada que espera pelo veículo de transporte público faz parte do trânsito, no entanto sua ação não é abordada pela lei. No caso de Belo Horizonte, percebe-se uma iniciativa institucional por parte da BHTRANS através do Jornal do Ônibus, afixado em no mínimo duas vias em cada veículo, que indica como os passageiros devem se portar quando estiverem utilizando o sistema de transporte público da cidade. O nome da seção do periódico é “Gentileza urbana é…”, que publica sugestões enviadas pelos próprios passageiros que aconselhando-os a, por exemplo,”não conversar ou cantar em tom alto e nem gritar dentro do ônibus” (ano 18, maio de 2011), “respeitar os outros passageiros e não colocar mochilas ou obetos sobre os assentos vagos” (ano 19, março de 2012), “ao se deslocar dentro do ônibus, pedir licença aso passageiros” (ano 18, janeiro de 2012). (Fonte: [online] disponível em <http://bhtrans.pbh.gov.br/portal/page/portal/portalpublicodl/funcionalidade/busca/resultadobuscasimplesv2?p_funcionalidade=BS&p_pesquisar_por=jornal%20do%20ônibus&gt;, acesso em 07/06/2015)

[7] O carnaval de rua de Belo Horizonte ressurgiu nos útimos anos como um movimento com qualidades políticas e satiricas, autoorganizado principalmente pela população jovem de classe média em resposta a atitudes de caráter totalitário do governo municipal de impedir a apropriação livre das praças públicas. Desde 2009, as associações carnavalescas organizam blocos que trazem à tona discussões e pontos de vista sobre a cidade. (DIAS, 2015) No entanto, a Prefeitura de Belo Horizonte (PBH), ao perceber o crescimento dos movimentos e a demanda turística que surgiu, passou a promover o evento por meio de campanhas publicitárias e passou a regular de maneira rígida o uso do espaço público durante o evento por meio de cadastro prévio de no mínimo dez dias na Secretaria Municipal de Turismo (Belotur). De acordo com dados fornecidos pela Belotur, a PBH em conjunto com patrocinadores privados investiu 5,5 milhões de reais neste carnaval, mais do que o dobro de 2009, em que foram investidos 1,5 milhão de reais. (G1 MG, 2015)

[8] No ponto de ônibus da rua Domingos Vieira em frente ao numéro 4 param os ônibus das linhas 9031, 9101, 9202, 9206, 9250, 9403, 9412, 9503, 9801, 9803, 9805, SC02B.

[9] Os critérios para o estabelecimento do que é mais ou menos ”notável” necessariamente passam por uma análise subjetiva da autora. Assim como a elaboração de um mapa implica na redução da realidade geográfica para o plano do papel, a análise dos registros de um experimento passa por uma síntese durante o processo de escrita, por mais que se estabeleça rigor metodológico em sua tradução.

[10] O atrito entre a pele do praticante de pole dance e a superficie métalica do aparato vertical é essencial para o estabelecimento de equilíbrio corporal. Essa é a razão pela qual se faz tecnicamente necessário que a pessoa deixe grande parte do corpo desvestida. Evidentemente isso contribui para sua conotação erótica e muitas vezes o praticante da modalidade tira partido dessa condição para usar roupas deliberadamente sensuais. Apesar de a intervenção no ponto de ônibus ter um caráter provocativo do uso das estruturas do espaço público, a questão da sensualidade e do constragimento por meio das roupas não foi um aspecto abordado diretamente.

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